Era uma vez...

Nasci no meio de uma história já um pouco desgastada, cansada e sem muito amor. Isso não significa que não me senti amada. Aliás, meu nascimento mesmo que não planejado, trouxe esperança de um novo enredo. Meu irmão com certeza sentiu isso e me recebeu com grande alegria. Mas o relacionamento difícil dos meus pais não era culpa de ninguém e mesmo acabando de forma trágica, seu fim já era inevitável.
Depois de alguns anos nos juntamos com outra história. História já escrita a muito tempo, na qual tivemos que nos adaptar ao que já existia. Eu era uma história pequena de poucas páginas que não sabia muito como se encaixar dentro daquele livro imenso cheio de palavras desconhecidas e que não condizia com a linguagem literária que eu conhecia até então.
Porém, o amor entre os dois grandes protagonistas que juntaram suas histórias cresceu e assim veio a vontade de construir algo novo juntos. E foi quando percebi que finalmente eu ia começar a fazer parte de uma nova história. Desde a sua gestação, do parto ao crescimento. Essa era a nova história de uma casa que também encheu as minhas páginas. Aliás crescemos juntas e sempre cuidamos muito bem uma da outra.
Hoje estou escrevendo do lugar que me sinto inteira. Onde vivi e continuo vivendo essa minha longa história. Onde conheci e me apaixonei pelo meu marido. Onde o amor e a vontade de construir algo novo juntos também cresceu. E onde o início de mais uma nova história começou.  💕

sonho mar


Essa noite sonhei que eu morava em um farol e tinha o poder de controlar tudo que acontecia no mar. Os surfistas vinham me pedir ondas absurdamente altas. As mães me pediam para recuar um pouco a água das margens para os filhos pequenos poderem nadar sem afundar. As crianças me pediam para fazer marolas. Tudo que me pediam eu dava. Só precisava imaginar, que acontecia exatamente o que eles queriam. Era gostoso ver todo mundo feliz, mas eu estava esgotada. O cansaço afetava o meu humor e eu tinha que tomar muito cuidado com isso, pois as águas também estavam conectadas com as minhas emoções. Eu podia mover o fundo do mar e causar estragos catastróficos com um grito de ira ou dor. Aumentar o nível de sal da água com a tristeza e mágoa. E quando essas coisas aconteciam, todos me insultavam. Deixavam de ver o meu dom como um presente e me olhavam como se eu fosse uma maldição. 
Mas por conta de uma fatalidade que causei, adquiri o conhecimento de que eu também tinha o poder de alterar o tempo. E assim eu conseguia voltar para os meus melhores dias e pular os que eu não estava bem para não afetar os banhistas. Ninguém percebia e ninguém se machucava. Na verdade, passaram até a gostar mais de mim, pois eu já dava o que eles queriam sem ter que me pedir. 


tarde esotérica

Aí você tá em casa, entediada, com garganta inflamada, nariz entubido e encontra aquelas cartas de tarot que comprou na época em que você era uma guria grunge dark e incompreendida pela raça humana. Então resolve se entreter e jogar nas cartas uma pergunta sobre o seu relacionamento com a gripe que pegou. E os resultados foram:

1. A carta que representa a minha relação atual dentro desse relacionamento.

R: Caminhos que se cruzam, laços que se atam.

2. A carta que representa as forças que influenciaram no passado desse relacionamento.

R: Mistério , contato invisível.

3. A carta que representa as forças que influenciam no nosso relacionamento presente.

R: Estabilidade, uma boa companhia, seus esforços serão gratificados.

4. A carta que representa as forças que vão influenciar o nosso futuro.

R: Vitalidade, poder e resistência sobre as infermidades.

O_O

Conclusão: Não vejo a hora de arranjar outro tema inútil para perguntar para as sábias forças ocultas que sairam de seus mundos só pra isso.

texto de Marina Gallegani

Conheci o trabalho de Marina Gallegani recentemente. Ela escreve no EULITERAL e depois de ler seus contos e poesias, pedi sua permissão para compartilhar alguns desses textos aqui no 1dia. 
O que segue abaixo, foi um dos primeiros que li. Poderia até dizer, vivi. Pois a doce Marina não apenas escreve, ela convida você a sentar e tomar um café. ☕ 
Na Pamplona

Espantei meu corpo preguiçoso e subi a ladeira.
Com a roupa que além de mim ninguém mais adora, fui atrás da lanchonete com gosto  de tradição.
Nos bancos verdes rajados grudados ao balcão, sentei farta e disse meu bom dia. O senhor de boné, com aba virada para trás e uma caneta bic brilhantemente apoiada em sua orelha esquerda, ouviu meu pedido e já passou para o lado.
Tinha rosto de quem trabalhou dentro daqueles azulejos brancos uma vida inteira.
O serviço eu chamaria é de fofo. Rápido e cativante, meu café veio ao ponto, açucarado e flamejante. O copo americano preenchia aquele espaço de forma turbulenta e saudosa.
Um tonel com coroa dourada fosca em cima. Dali saía a bebida preta e ascendente. Via o vapor fervido à minha frente com toda a parafernalha constantemente limpa e renovada.
Uma bagunça carinhosamente arrumada. Eu no balcão, eles mergulhados lá dentro, fazendo o trabalho familiar e lento.
O letreiro luminoso na esquina do teto piscava pontos azuis e vermelhos sem a mínima vergonha, iluminando as letras que paulatinamente formavam a palavra café.
As frutas brasileiras esperavam na prateleira abaixo dos destilados. Os copos estranhamente largos virados para baixo. Era um Brasil povoado em festa e fartura.
Quase tudo era antigo, a não ser pela cobertura de inox que acomodava a cozinha externa. O senhor do boné virado limpava a porta dos fogões de forma macia e atenciosa, como se eles fossem feitos de cristal.
Antes ele explicava ao moço novo como é que se media uma boa bebida sem estragar o cliente. O medidor foi deixado de lado e a sabedoria popular impôs seu devido lugar.
Esse moço entregou meu pão na chapa com manteiga derretida me chamando de querida. Nada afetado, apenas afetuoso.
Havia um afeto gordo naquele lugar.
Pedi outro café que já estava se pedindo no meu desejo, antes mesmo da primeira golada que queimou feito fogo de dragão minha língua doce. Doeu sem dó.
Quem me entregou o segundo pingado preto amarronzado foi a mulher de corpo largo e boca redonda. Com tela nos cabelos seu sorriso era pequeno, mas era sincero.
Eu queria ficar mais um punhado lá. Eram tantos detalhes que tornou-se impossível eu me apaixonar por tudo de uma vez só.
Perguntei curiosa e escancarada à outra moça, também de boca redonda porém mais recente, como era o almoço e o feijão. Ela me disse sorrindo e rindo ao mesmo tempo sobre a vida que respirava ali.
Todos me olhavam nos olhos. Todos tinham um sorriso de prontidão. Não havia falsidade. A simplicidade do trabalho coloria os pulmões de cada um que perpetuava uma latente tradição.
Voltei para o almoço e ainda troquei uma prosa com mais um moço.
Assim conheço a história viva dos detalhes tão harmônicos e descombinados. Talvez porque a vida seja exatamente como lá: antiga, leve, dura e estampada pelos retalhos do tempo.

Texto de Marina Gallegani - https://euliteral.com/

fotografias do meu pai

Meu pai é um fotógrafo amador com hábitos de um profissional. Passa um bom tempo buscando o ângulo e a luz certa de cada clique. 
Muitas vezes me chama para mostrar a beleza dos tons e de uma perspectiva. 
Observar uma estátua é também observar tudo que interage com ela e em todos os ângulos possíveis. É um estudo profundo sobre o olhar. 
Não é um turista convencional em nenhum dos seus aspectos de explorador. Gosta de fugir de uma atração óbvia e conhecida para um restaurante escondido e charmoso ou um banco de parque pequeno mas com a mais perfeita vista. São pequenos e valiosos tesouros que ele acha pelo mundo e sente orgulho em poder compartilhar. 
Mas no caso de uma visita a uma Torre Eiffel ou um Museum Of Modern Art, suas fotos não são nada simples, pelo menos para olhos leigos. 
Em sua visão, ele consegue transformar arte em mais uma questão e o óbvio em arte. 
















































fotografias de Lorenzo Rossignoli



...espero que sirva de incentivo.

Ultimamente tenho me sentido satisfeita. Em um estado de orgulho próprio, contente com resultados, me sentindo capaz de entregar o meu melhor. Nada tem a ver com quem está ao meu redor, mas sim com quem eu encontrei dentro de mim. Aliás, esse melhor relacionamento comigo mesma tem feito bem até aos meus relacionamentos com os amigos, marido, família, chinchilas (rs), clientes,..
O meu trabalho como fotógrafa está revelando cada vez mais uma qualidade minha que desconhecia e que sempre admirei nos outros - mergulhar de cabeça, mesmo que sem o melhor equipamento de mergulho, instrutor ou a garantia de uma lancha de resgate. Pode dar merda? Pode. Mas aí é só tomar um banho que o cheiro passa.
E quando é que acionamos essa libertadora cara de pau (no bom sentido, se é que existe)?
R: Quando encontramos o que amamos fazer.
Estou trabalhando a pouco tempo como fotógrafa e recentemente recebi uma (super mega esperada) ligação do(a) cliente me dizendo que, amaram meus cliques de um portfólio feito na correria em apenas metade de um dia e que fui a escolhida para o trabalho. Pulei no sofá, amassei a almofada na cara para abafar a euforia e passei o dia inteiro sorrindo para estranhos (é, não importa o quanto o tempo passa, continuo expressando os meus sentimentos da mesma forma. O mesmo ritual desde o meu primeiro beijo (rs)).  No início encarei isso como sorte - devo ter pego uma onda de amadores - um péssimo hábito que tenho de desprezar o meu potencial. Depois tive aquele papo de amiga comigo mesma e disse: - Ei,você mereceu. E não foi por falta de melhor opção, foi porque você era a melhor opção!  E ter consciência disso foi tão bom. Foi como eu me sentia no fim de completar uma corrida de 7 km (quando eu corria) ou quando finalmente, depois de várias trombadas nos colegas, consegui executar aquela coreografia absurda em perfeita sincronia (quando eu tinha dinheiro para pagar aulas de dança). Mas claro que nada disso vem sem esforço e sem quebrar a cara, queimar o filme, torcer o tornozelo, receber olhares do tipo "se você pisar no meu pé de novo eu te arrebento". Faz parte do processo de ser reconhecido ou cida no final.
Mas o que quero compartilhar aqui, pois foi uma valiosa chave que encontrei e abriu uma janelinha com uma linda vista dentro de mim,  foi descobrir que o reconhecimento tem que ser apenas seu. Aquela estrelinha dourada no caderno que você tanto implorava para a professor(a) dar é você mesma(o) que tem que dar. Aquele tapinha nas costas de " É isso aí, mandou bem hein!" é você mesma(o) que tem que dar. E se no caminho da vida os outros repararem nas suas qualidades, habilidades e talentos, bom para eles. O importante é você nunca deixar de aperfeiçoar o que tem de melhor. Sai da esteira e vai correr onde tem a pedra no caminho. Não se deixe enganar pelo conforto, pois senão o brilho some e o tédio domina esmagando qualquer pingo de autoestima.
Se valorize, mas não a ponto de subir no pódium e sim de subir escadas. O primeiro lugar tem fama de ser entediante. E por último, compartilhe, receba e nunca se compare. Trocar conhecimentos é sempre um crescimento seja na área que for, mas cada um é cada um ou"cadum cadum" (como meu pai costuma dizer (rs)).


trabalhos gráficos e fotográficos

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Cliente: Vida Orgânica