texto de Marina Gallegani

Conheci o trabalho de Marina Gallegani recentemente. Ela escreve no EULITERAL e depois de ler seus contos e poesias, pedi sua permissão para compartilhar alguns desses textos aqui no 1dia. 
O que segue abaixo, foi um dos primeiros que li. Poderia até dizer, vivi. Pois a doce Marina não apenas escreve, ela convida você a sentar e tomar um café. ☕ 
Na Pamplona

Espantei meu corpo preguiçoso e subi a ladeira.
Com a roupa que além de mim ninguém mais adora, fui atrás da lanchonete com gosto  de tradição.
Nos bancos verdes rajados grudados ao balcão, sentei farta e disse meu bom dia. O senhor de boné, com aba virada para trás e uma caneta bic brilhantemente apoiada em sua orelha esquerda, ouviu meu pedido e já passou para o lado.
Tinha rosto de quem trabalhou dentro daqueles azulejos brancos uma vida inteira.
O serviço eu chamaria é de fofo. Rápido e cativante, meu café veio ao ponto, açucarado e flamejante. O copo americano preenchia aquele espaço de forma turbulenta e saudosa.
Um tonel com coroa dourada fosca em cima. Dali saía a bebida preta e ascendente. Via o vapor fervido à minha frente com toda a parafernalha constantemente limpa e renovada.
Uma bagunça carinhosamente arrumada. Eu no balcão, eles mergulhados lá dentro, fazendo o trabalho familiar e lento.
O letreiro luminoso na esquina do teto piscava pontos azuis e vermelhos sem a mínima vergonha, iluminando as letras que paulatinamente formavam a palavra café.
As frutas brasileiras esperavam na prateleira abaixo dos destilados. Os copos estranhamente largos virados para baixo. Era um Brasil povoado em festa e fartura.
Quase tudo era antigo, a não ser pela cobertura de inox que acomodava a cozinha externa. O senhor do boné virado limpava a porta dos fogões de forma macia e atenciosa, como se eles fossem feitos de cristal.
Antes ele explicava ao moço novo como é que se media uma boa bebida sem estragar o cliente. O medidor foi deixado de lado e a sabedoria popular impôs seu devido lugar.
Esse moço entregou meu pão na chapa com manteiga derretida me chamando de querida. Nada afetado, apenas afetuoso.
Havia um afeto gordo naquele lugar.
Pedi outro café que já estava se pedindo no meu desejo, antes mesmo da primeira golada que queimou feito fogo de dragão minha língua doce. Doeu sem dó.
Quem me entregou o segundo pingado preto amarronzado foi a mulher de corpo largo e boca redonda. Com tela nos cabelos seu sorriso era pequeno, mas era sincero.
Eu queria ficar mais um punhado lá. Eram tantos detalhes que tornou-se impossível eu me apaixonar por tudo de uma vez só.
Perguntei curiosa e escancarada à outra moça, também de boca redonda porém mais recente, como era o almoço e o feijão. Ela me disse sorrindo e rindo ao mesmo tempo sobre a vida que respirava ali.
Todos me olhavam nos olhos. Todos tinham um sorriso de prontidão. Não havia falsidade. A simplicidade do trabalho coloria os pulmões de cada um que perpetuava uma latente tradição.
Voltei para o almoço e ainda troquei uma prosa com mais um moço.
Assim conheço a história viva dos detalhes tão harmônicos e descombinados. Talvez porque a vida seja exatamente como lá: antiga, leve, dura e estampada pelos retalhos do tempo.

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