...um sonho

Sonhei que estava sentada no meio de uma sala imensa sem móveis, sem nada. Na minha frente tinha um livro que abri e comecei a ler em voz alta. Nas páginas as palavras ficavam dançando e eu lia palavras que não entendia o que significavam. Cheguei mais perto para tentar visualizar melhor e minha cara entrou para dentro da página e minha cabeça saiu de dentro de um açucareiro que estava na mesa de jantar da minha família. Voltei com a cabeça e sai da página assustada. Virei a página e fui de novo com a cara para dentro da folha e mais uma vez eu estava lá, no meio da mesa de jantar, com a minha família ao redor sem notarem a cena absurda da minha cabeça levantando a tampa do açucareiro.
Voltei ofegante para fora do livro e já não estava mais sozinha. Na minha frente tinha um menino sentando e ele me olhava sem emoções, como um robô. Abriu a boca e esticou a língua para fora como uma máquina e então percebi  uma pequena vitrola na ponta de sua língua.
A agulha do equipamento desceu e "Changes" começou a tocar. O garoto fechou a boca, levantou e começou a dublar a voz do David Bowie, dançando pela sala.
Depois que saiu por uma enorme cortina dançando, a música foi ficando cada vez mais distante até virar apenas um eco. Levantei e fui até a cortina. O outro lado daquele pano era um palco com uma luz iluminando e me cegando de tão forte. O garoto estava ali no palco comigo, sentado em um balanço e voando pra lá e pra cá. Ao forçar a visão eu só conseguia ver uma silhueta sentada no público. O som daquele vulto comendo pipoca era quase hipnotizante e enchia o teatro inteiro. Depois comecei a escutar umas tosses, mas não tinha mais ninguém ali a não ser aquela silhueta que mastigava. Derepente as tosses e o som da pipoca se multiplicaram e eu precisava escapar de tudo aquilo. Fui correndo até a única coisa que eu conseguia ver, que era uma porta que ficava lá no fundo, atrás da platéia. Corri por um caminho de cadeiras vazias e quando me aproximei do vulto ele continuava sendo apenas um vulto. Um ser escuro e sem rosto. A porta de saída não chegava perto nunca e parecia que fugia de mim. Eu parei ofegante e vi a porta indo embora, ficando cada vez menor até sumir.