quarta

quarta é o dia da semana que a minha família se junta para um jantar regado a experiências culinárias, vinhos, grapas, piadas, novidades, conhecimentos e discussões.
ontem não foi muito diferente, mas em algum momento da noite só ficaram as mulheres ao redor da mesa. e não paramos de encher os copos e falar sobre a vida e tantas lembranças.
chegamos a contar umas para as outras coisas que deixamos de falar na época, por raiva ou talvez até por não ser a hora certa.
foi um fim de noite de abraços coletivos, lágrimas e também muitas, mas muitas risadas.
depois de sair da casa, ainda fiquei um tempo com a minha irmã andando na rua.
nunca nos abraçamos tanto e rimos tanto.
sim, o álcool estava falando junto, mas isso não importa.
ela escreveu na janela de um carro uma frase que ela mesma criou (queria muito me lembrar dela agora). desenhamos nos vidros como crianças que nunca fomos juntas.
depois de um rodopio que nos distânciou e deixou cada uma em sua porta do carro, ela me mandou um beijo e disse: _te amo.
só não sei se ela escutou quando eu respondi.
tive um delay e quando pronunciei as palavras ela já estava de costas entrando no carro.

_também te amo.


o dia que conheci a D e a V


Era isso que eu estava admirando quando conheci a D e a V. Elas vieram patinando até onde eu estava sentada.
D é uma negra grande, fortona, que apesar da voz mais grossa e a quantidade de palavrões que saia daquela boca, se mostrou ser a mais doce.
V parecia nem ter percebido a minha presença. Alta, cabelo black power, linda, ..Patinava bem melhor que a D e enquanto conversava com ela, que já estava sentada do meu lado de costas para o lago, exibia suas habilidades.

V:
- Sério nêga, a menina tava falando muito mal de você. Dizia que vc já tinha dado pra Ciclano e Beltrano. Aaai, mas me deu uma vontade de meter um soco na cara daquela vaca! Juro que se a J não estivesse me segurando naquela hora...E contando pra todo mundo que viu você beijando o E na festa da S. Pra que falar tanta merda assim??? E mesmo se fosse verdade, pra que se meter assim na vida dos outros???

D (que falava com uma tranquilidade de dar inveja):
- Ó V, vou te falar três palavras - EU.. SOU.. FODA! hahahahaha... Eu sou foda, né não?! Eu nem estava lá e fui o assunto das pessoas - EU SOU FODA!

E nessa eu não me segurei e ri junto com elas. A D virou pra mim e observando que eu ria limpando algumas poucas lágrimas, disse:

- Ô minha nêga (o que me fez rir ainda mais), não sei se você tá chorando ou rindo! Tá tudo bem?

C (eu):
- Estava meia pra baixo, mas você já me fez esquecer o porque!

V chegou mais perto.

D:
- É HOMEM? Garanto que é por causa de homem! Olha V, mais uma que sofre que nem você!  Vou te falar três palavras também. Qual seu nome nêga?
- C - eu disse.
- Tá C, vou falar três palavras pra vc - VC É FODA! Pensa assim. Garanto que tbm é como eu, vira assunto quando não tá perto. Com certeza deve ser alvo de fofocas de quem nem te conhece, né não?! Fala ae!

C:
- Nãã, acho que dessa fase eu já passei. Na minha idade os problemas são outros.

E dito isso, conversamos, conversamos e conversamos e fiquei impressionada com a mentalidade daquelas meninas. Eu, na idade delas, deixava tudo me afetar e sofriiiia quando me envolviam em boatos perversos e sem razão. Bom, acho que só foram duas vezes na minha vida, já que eu não era nada popular. Mas enfim, gostaria de ter sido mais como a D nesses momentos. E por mais que eu achasse que não entenderiam a minha situação por serem muito mais novas, a D já tinha um filho que foi abandonado pelo pai e me disse muitas coisas incríveis que eu precisava escutar.

Já levantando e finalizando o papo...

D:
- Olha, faz que nem eu, não dá corda para o que te faz mal. No meu caso, as pessoas gostam de falar merda a meu respeito porque eu sou muuuito bonita e gostosa..hahahaha.. - V e D deram um "toca aqui" rindo - ..a verdade é que eu já tenho problemas demais na minha vida, se eu ficar esquentando minha cabeça com o que os outros pensam de mim, vixxii!
Você patina? Vem com a gente patinar um dia! Sempre estamos aqui no fim de semana, em "tal hora e dia específico". Hoje foi a primeira vez que resolvemos dar uma volta durante a semana, mas é difícil.

C:
- Putz, sou péssima no patins, quase matei um cachorrinho uma vez.

D e V:
- Sério mesmo?! HAHAHAHAHAHA...

D:
- Mas eu sou ruim também, a V que é boa tá me ajudando a melhorar! Aparece lá tá?! E fica com esse sorriso, tá mais bonita assim!
Vamos lá V? Tenho um filho pra cuidar.

D e V:
Beijos C, bom te conhecer! Fica com Deus!

C:
-Tchau meninas e valeu mesmo pela força!


sonho

Hoje sonhei que a vida ia acabar. A vida em geral. Tudo ia desaparecer. O meu sonho começou assim, com essa idéia.
Todos já sabiam que aos poucos não existiriam mais. Mas mesmo assim se seguravam em alguma coisa achando que poderiam se salvar da extinção.  Alguem me ofereceu um gancho preso a um balão de papel. Caso o planeta sumisse eu poderia continuar vivendo e flutuando no nada. Aceitei, mas não via muita utilidade, sendo que o fim iria ser o mesmo para todos.
Enquanto algumas pessoas flutuavam e desapareciam, seus balões continuavam seguindo seus percursos sozinhos até pegar fogo e desintegrar.
Meu pé ainda alcançava o chão e eu não estava com medo do que poderia acontecer. Sentia que tudo aquilo era natural. Parte do grande projeto chamado vida.
Depois de um tempo ali, observando abaixo o que ainda existia e acima as bolinhas de fogo subindo cada vez mais alto, dei conta de que nada mais iria acontecer e que a Terra não iria mais sumir. De alguma forma a minha vida, e de algumas outras pessoas haviam sido poupadas.
Porém éramos poucos e muitas coisas foram destruídas. O planeta estava sem água e sem árvores. E como parte de um novo estilo de vida, começamos a nos juntar em grupos para sobreviver. 
Levei o meu grupo para um shopping abandonado, pegamos carrinhos de compras e fomos catando tudo que podia ser útil. Galões e galões de água, frutas, pão, bolachas, remédios, … Lembro de me sentir como um bicho a procura da caça e pronta para brigar pelo que é meu.
Aos poucos o problema social chegou a aumentar. O grupo não era mais confiável. Alguns tomavam mais água do que havia sido estipulado por dia. Outros roubavam as comidas dos outros. Percebi que tinha que me preparar para sobreviver por conta própria e achar um esconderijo.
Sem fazer os outros notarem o meu medo pelo o que eu já sabia, fui esquematizando a minha fuga.  Me comportei como todos, até o momento de me tornar apenas mais uma pessoa como eles. Assim eu desaparecia e podia ser esquecida.  Nada em mim era um identificador.  Nenhum gesto, nenhum tom de voz, nenhuma etiqueta, desenho, cor, ..Nada!
Quando achei o momento certo, comecei a correr muito.
Corri tanto que parecia ter dado a volta ao mundo. Corri tanto que já não sabia mais onde estava. Corri tanto que nunca me senti tão viva em toda a minha vida.

... quando vou correr no parque

Resolvi retomar o ritmo e voltar a correr. Entrando no parque decidi usar o fone de ouvido como muitas vezes já usei - sem musica, abafando o som de fora e aumentando o som de dentro. O som dentro de mim. Gosto da sensação de não estar completamente desligada dos sons ao meu redor, mas sentir cada mudança que acontece no meu corpo durante a corrida. Tudo fica mais nítido. Parece que estou em câmera lenta. Ele. Ela. Tudo que está ao alcance da minha visão parece estar em câmera lenta. Passo por um cachorro, um skatista. O vento chacoalha alguns ramos e as folhas que flutuam caem lentamente até o chão. Rodas das bicicletas fazem um barulho de mosquito que passa rápido sem te picar. Olhares cruzam com os meus. Sinto atrair alguns olhares, mas evito encarar. O suor vai escorrendo pelo meu rosto e a ponta do meu rabo de cavalo lembra um pára-brisa e vai de um lado para o outro. Sinto meu cabelo querendo se libertar daquele elástico frouxo. Gosto do interagir com todos os elementos. O vento que mexe levemente as mechas já soltas e acaricia  meu rosto. A sola do meu tênis saindo do asfalto e pisando na terra. O cheiro da humidade nos troncos das árvores, o som dos galhos e folhas secas quebrando em cada passo que dou. Passo pelas quadras de basquete e presencio uma bela cesta. Risadas. Desacelero um pouco mais quando noto que já estou perto da encruzilhada. Saindo do bosque e voltando para o asfalto. Volto para os olhares, sorrisos, cachorros saltitantes e escuto bem a minha respiração que vou controlando com o meu ritmo. Sinto o meu rosto quente e gelado ao mesmo tempo. Imagino as minhas bochechas bem rosadas, que eu sei que acontece quando  estou naquela temperatura e sensação corporal. Meu batimento está forte mas controlado junto com a minha respiração. Sinto a musculatura das pernas, sinto o suor escorrendo pela minha nuca. Estou perto da saída do parque e assim vou desacelerando e nessa hora tudo dentro de mim fica mais alto. Então espero, dou um tempo para o meu corpo se acalmar. Minha respiração ficar menos prolongada e meu batimento normalizar. Enquanto isso aproveito para admirar as luzes da cidade nas águas e um pouco mais da natureza. Aos poucos vou tirando os fones e perdendo a conexão com os meus sentidos mais aguçados. Tudo fica mais rápido e em alguns minutos os barulhos são só da cidade.

quem garante?






sexta

Hoje resolvi escapar dos happy hours, dos papos profundos e das pessoas em geral.  Não era uma boa noite para eu ter que lidar com tudo isso. Me mostrar interessante ou interessada. Ser receptível e sociável. Hoje resolvi ir para casa mais cedo e ficar na companhia do meu sofá, do resto de vinho e de alguns episódios de Bones.
Ultimamente estou odiando fins de semana. Não sei muito o que fazer comigo mesma. Era mais fácil criar programas e distrações na companhia de alguém. Agora que estou sozinha, todo esse espaço e silêncio me incomoda um pouco. Tento não pensar nisso e me desapegar, mas toda vez que desligo um som só escuto a minha respiração e a geladeira.





entre malas e ponteiros



Costumo fazer uma analogia como se a vida fosse uma enorme estação de trem.
Um dia escrevi  a seguinte frase - "Na estação da vida o relógio parou". Claro que me referia a minha vida e de como estou me sentindo parada. Imóvel no meio de tanto movimento, de tantos destinos. Me via parada, segurando e rodeada por um monte de malas, olhando fixamente o relógio quebrado. Parecia esperar alguma coisa dele. Algum sinal de vida.
Enquanto isso pessoas passavam decididas e leves. Compravam seus bilhetes, entravam em seus destinos, carregando somente o necessário. E eu não conseguia decidir nada. Me sentia confusa e cansada com toda aquela bagagem. Os músculos estavam exaustos e doloridos. E aquele enorme relógio sem utilidade parecia ser tudo que eu realmente tinha.
Hoje sonhei que estava lá de novo. No mesmo ponto, com as mesmas bagagens e observando aquela enorme máquina do tempo. Mas dessa vez tinha uma pessoa lá. Alguém estava consertando o relógio.
- Ei, você aí em baixo , traz aqui pra mim o ponteiro perto do seu pé!
Foi quando olhei para o chão e vi que ao invés das minhas malas, tinha esse enorme ponteiro ornamentado.
- Isso, vem aqui dar uma ajuda. Traz ele aqui pra mim.
No incio da escada eu conseguia usar o ponteiro como apoio, mas depois que não alcançava mais o chão e começou a pesar, pendurei por um de seus ornamentos na alça da minha saia e continuei a subir. Subia, subia, subia e parecia nunca chegar no mecânico. Até que alguem me cutucou e quando virei para ver, era o mecânico em uma outra escada ao lado.
- Está aqui senhor. - Eu disse desenganchando o ponteiro da minha saia e passando para ele.
- Obrigado.
- Faz tempo que esse relógio está parado. Acha que vai funcionar hoje? - perguntei tentando puxar assunto e ver melhor o rosto do mecânico.
- Pode ser, mas isso depende de você, Carla. Preciso arrancar o seu coração para dar corda no relógio. -
Disse o mecânico sem rosto e com uma faca na mão.
No susto me soltei da escada e fui caindo,...
caindo
caindo
cain...
ca......
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