Rosa,.. por Lenita

..suas mãos de fada e seus sabores.

Lembranças ligadas a comida são as mais gostosas que tenho, as mais acessadas e acho que são as que guardo com maior carinho.
Li outro dia, que cozinhar é um ato de amor. Confesso que na hora, achei muito piegas e exagerado (acho que a minha criação fria oriental, sempre fala primeiro...). Mas, depois, refletindo e lembrando de algumas pessoas e momentos,  não tive como não concordar com a afirmação.
Uma dessas pessoas era a Rosa, caseira da casa de campo de uma amiga-irmã, uma fada com mãos delicadas que só conseguia produzir delícias, desde uma salada de alface e tomate até bolos de aniversário recheados (coisa que eu particularmente não gosto muito).
Íamos com certa frequência a Monte Verde quando era mais nova (pós-adolescência). E a expectativa do que a Rosa tinha preparado para comermos, ao chegarmos, era comum a todos.
E apesar de ter tudo para dar errado, ou ficar somente razoável (pois, em geral, chegávamos tarde e nosso jantar estava preparado, mas tínhamos que esquentar no micro-ondas), o jantar era sempre delicioso. E eram coisas simples, como: arroz, feijão, bife a milanesa, carne assada, salada de alface com tomate, entre outros, mas parecia sempre que da Rosa era mais gostoso, mais saboroso.
Todos os sabores da Rosa são inesquecíveis: a geleia de laranja, a geleia de morango, os pães (com nozes e sem nozes), os bolos (simples e recheados), o arroz, o feijão, etc... Mas um em particular é especial: o moussaká.
Nunca tinha comido moussaká antes. Descobri depois que se tratava de um prato típico da Grécia, que nada mais é do que uma “torta” salgada de batata, berinjela, molho branco, molho de tomate e queijo.
A única vez que comi o moussaká dela, só o aroma que vinha da cozinha já me enebriava... E quando dei a primeira bocada, foi paixão para uma vida inteira.
A maciez da batata e da berinjela se misturavam com os molhos e o queijo de uma forma harmoniosa e perfeita. A moussaká desmanchava na boca, e tive que segurar um longo suspiro, que certamente sairia como um sonoro hummmm (afinal de contas os pais da minha amiga, que são super finos, iam achar muito estranho...).
Procurei por anos uma receita de moussaká que fosse ao menos parecido com o da Rosa, nunca achei. Comi moussaká em diversos restaurantes, mas nenhum se iguala ao dela. Fiz dezenas de vezes, nunca consegui sabor igual ou quase igual. Tinha um certo sabor dentre todos os sabores que fiquei anos para descobrir o que era. Era o cardamomo. Achei que o segredo era a especiaria no molho, mas mesmo assim, não ficou igual.
Depois de várias tentativas, cheguei a conclusão que infelizmente nunca mais vou comer uma moussaká como a da Rosinha, que foi levar os seus sabores para outro lugar...
Ao menos, posso dizer que tenho a lembrança dela, que além de ser uma ser humano incrível e doce, tinha mãos de fada e toda comida que ela fazia era especial, e que pude me deliciar naquele moussaká, cujo aroma e sabor não saem da minha memória. Creio que o amor e o prazer que ela tinha em cozinhar é que fazia toda a diferença. E hoje, lembrando da Rosa não tenho como negar: cozinhar é um ato de amor.
texto de Lenita Satomi Hiraki