celestina naftalina

hoje pensei muito na minha avó.
passei ao lado do prédio onde morava e me deu saudades da época em que começamos a nos aproximar.

sabe, não tive aquela vó que muitos conhecem - fofa, com talentos culinários únicos e que mima a todos.  a minha até era um grande mistério pra mim e para considera-la uma senhora fofa era necessário ter uma visão muito, mas muito ampliada do conceito.

durante a infância o contato com os meus avós era quase nulo.  se o acaso me deixasse ali sozinha com os dois ou um deles, sentia o desconforto da minha presença, por não saberem como interagir com uma criança.

com eles aprendi logo cedo que cada casa é um mundo e que existem mundos que devem ser mais respeitados e não devem ser alterados.
aprendi que não é não.. e ponto.
aprendi que não se deve tocar em nada sem permissão e nisso confesso que algumas vezes falhei.

mas também, aquela casa era um desafio para qualquer criança! cheia de objetos antigos que carregavam histórias - vasos, anjos, caixas, candelabros e objetos de arte.  e no meio de tudo isso meu olhar curioso não conseguia se desfazer do interesse por aquele - metade livro, metade caixa de música - que estava sempre ali no centro da mesa da sala de visita.
era uma tentação e as minhas pernas balançando inquietas no sofá, deviam entregar a minha ansiedade de toca-lo.  não via a hora dos adultos saírem de perto e me darem aquele prazer de poucos mas valiosos minutos, segurando e analisando aquele livro que queria ser música.
queria poder realizar seu desejo, mas lhe dar corda revelaria o meu mau comportamento.

conheci minha vó mais tarde, logo depois que minha tia faleceu.
almoçava com ela uma vez por semana, antes de ir para a aula de música.
não era sempre agradável e eu ainda me sentia como aquela menina que não podia mexer em tudo, mas quando ela relaxava e me contava histórias ou me pedia para trazer um livro e sentar com ela para folhear, era sempre uma conquista.  era um passo mais perto da minha história e da minha família.

às vezes cada uma ficava com um livro, sentadas em poltronas de frente uma para a outra.
nem sempre eu me prendia ao conteúdo, e nessas horas levantava os olhos devagar e observava com o cuidado de não ser notada, cada detalhe daquela senhora.  a meia calça marrom que sempre escorregava e deixava com um certo desleixo as poucas pernas que apareciam debaixo do vestido.  alguns botões que pareciam lutar para continuar escondendo algumas partes mais volumosa de sua cintura e peitos.  aquela peruca horrível com sua grande mecha branca que lhe dava uma imagem de vilã dos desenhos da walt disney.  suas mãos velhinhas e de dedos tortos que pareciam fazer um enorme esforço em cada troca de página.

me sentia bem de estar ali com ela. sentia
que mais do que nunca ela precisava de mim.
precisava de atenção e alguma alteração em seu mundo intocável.

e aquele cheiro de naftalina?
era o cheiro da casa, de todos os móveis, livros,.. e até mesmo dela.
queria associar minha avó com outro cheiro, mas não era mais possível depois de tantos anos.
talvez com o cheiro das massas e risotos tão italianos, bem assim como ela nunca deixou de ser.  com o cheiro do whisky que ela tomava todas as noites antes de dormir - e que também passou a tomar antes do almoço.  com o cheiro dos livros que ocupavam toda uma parede de sua pequena e rica biblioteca.  o cheiro dos móveis, forros,...
mas não, nada superava aquele forte odor de naftalina.
celestina naftalina.

hoje, em meu pequeno mundo mora o seu livro-música que tanto me cativava. e então entendi que nunca fez tanto sentido ter ele comigo para lembrar de você, celestina. pois me lembro que dividimos um pouco de música e poesia juntas e infelizmente também te segurei por pouco tempo, desejando ter tido mais.