... quando vou correr no parque

Resolvi retomar o ritmo e voltar a correr. Entrando no parque decidi usar o fone de ouvido como muitas vezes já usei - sem musica, abafando o som de fora e aumentando o som de dentro. O som dentro de mim. Gosto da sensação de não estar completamente desligada dos sons ao meu redor, mas sentir cada mudança que acontece no meu corpo durante a corrida. Tudo fica mais nítido. Parece que estou em câmera lenta. Ele. Ela. Tudo que está ao alcance da minha visão parece estar em câmera lenta. Passo por um cachorro, um skatista. O vento chacoalha alguns ramos e as folhas que flutuam caem lentamente até o chão. Rodas das bicicletas fazem um barulho de mosquito que passa rápido sem te picar. Olhares cruzam com os meus. Sinto atrair alguns olhares, mas evito encarar. O suor vai escorrendo pelo meu rosto e a ponta do meu rabo de cavalo lembra um pára-brisa e vai de um lado para o outro. Sinto meu cabelo querendo se libertar daquele elástico frouxo. Gosto do interagir com todos os elementos. O vento que mexe levemente as mechas já soltas e acaricia  meu rosto. A sola do meu tênis saindo do asfalto e pisando na terra. O cheiro da humidade nos troncos das árvores, o som dos galhos e folhas secas quebrando em cada passo que dou. Passo pelas quadras de basquete e presencio uma bela cesta. Risadas. Desacelero um pouco mais quando noto que já estou perto da encruzilhada. Saindo do bosque e voltando para o asfalto. Volto para os olhares, sorrisos, cachorros saltitantes e escuto bem a minha respiração que vou controlando com o meu ritmo. Sinto o meu rosto quente e gelado ao mesmo tempo. Imagino as minhas bochechas bem rosadas, que eu sei que acontece quando  estou naquela temperatura e sensação corporal. Meu batimento está forte mas controlado junto com a minha respiração. Sinto a musculatura das pernas, sinto o suor escorrendo pela minha nuca. Estou perto da saída do parque e assim vou desacelerando e nessa hora tudo dentro de mim fica mais alto. Então espero, dou um tempo para o meu corpo se acalmar. Minha respiração ficar menos prolongada e meu batimento normalizar. Enquanto isso aproveito para admirar as luzes da cidade nas águas e um pouco mais da natureza. Aos poucos vou tirando os fones e perdendo a conexão com os meus sentidos mais aguçados. Tudo fica mais rápido e em alguns minutos os barulhos são só da cidade.