entre malas e ponteiros



Costumo fazer uma analogia como se a vida fosse uma enorme estação de trem.
Um dia escrevi  a seguinte frase - "Na estação da vida o relógio parou". Claro que me referia a minha vida e de como estou me sentindo parada. Imóvel no meio de tanto movimento, de tantos destinos. Me via parada, segurando e rodeada por um monte de malas, olhando fixamente o relógio quebrado. Parecia esperar alguma coisa dele. Algum sinal de vida.
Enquanto isso pessoas passavam decididas e leves. Compravam seus bilhetes, entravam em seus destinos, carregando somente o necessário. E eu não conseguia decidir nada. Me sentia confusa e cansada com toda aquela bagagem. Os músculos estavam exaustos e doloridos. E aquele enorme relógio sem utilidade parecia ser tudo que eu realmente tinha.
Hoje sonhei que estava lá de novo. No mesmo ponto, com as mesmas bagagens e observando aquela enorme máquina do tempo. Mas dessa vez tinha uma pessoa lá. Alguém estava consertando o relógio.
- Ei, você aí em baixo , traz aqui pra mim o ponteiro perto do seu pé!
Foi quando olhei para o chão e vi que ao invés das minhas malas, tinha esse enorme ponteiro ornamentado.
- Isso, vem aqui dar uma ajuda. Traz ele aqui pra mim.
No incio da escada eu conseguia usar o ponteiro como apoio, mas depois que não alcançava mais o chão e começou a pesar, pendurei por um de seus ornamentos na alça da minha saia e continuei a subir. Subia, subia, subia e parecia nunca chegar no mecânico. Até que alguem me cutucou e quando virei para ver, era o mecânico em uma outra escada ao lado.
- Está aqui senhor. - Eu disse desenganchando o ponteiro da minha saia e passando para ele.
- Obrigado.
- Faz tempo que esse relógio está parado. Acha que vai funcionar hoje? - perguntei tentando puxar assunto e ver melhor o rosto do mecânico.
- Pode ser, mas isso depende de você, Carla. Preciso arrancar o seu coração para dar corda no relógio. -
Disse o mecânico sem rosto e com uma faca na mão.
No susto me soltei da escada e fui caindo,...
caindo
caindo
cain...
ca......
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