... que tudo era apenas um sonho

























Eu estava em pé, perto de uma alta construção que mais parecia uma igreja, mas depois ouvi dizer que era um monastério. Fui passando aos poucos por aquelas enormes portas de madeira e quanto mais entrava, mais pequena me sentia. Era como se aquela construção respirasse. Vários tipos de janelas percorriam suas paredes em toda a sua altura. E cada uma tinha a sua escada. E o tamanho da escada dependia da altura da janela. Eram escadas de tronco, bem estreitas que tinham como apoio o chão e a parede.
Voltando o olhar para o resto do enorme e altíssimo monastério, percebi que tudo parecia como uma pequena e antiga cidade. Com postes de luz a querosene, caminhos de paralelepipedo, pessoas em bicicletas e altos monociclos. Um desses monociclos quase me atropelou e quando olhei para cima, vi um senhor de rosto fino, usando uma cartola alta, luvas brancas e um fraque longo.
- Licença madame, está no meu caminho e estou atrasado. Preciso terminar de apagar todos os postes antes do sino das sete horas do novo dia.
- Desculpe! - e dei um passo para trás liberando sua passagem.
Depois de um tempo observando tudo ao meu redor, resolvi voltar a minha atenção para a caixa de sapatos que eu carregava em minhas mãos. Não me lembrava quem me deu ou qual o seu conteúdo. Nem me lembrava se era minha ou se tinha que entregar a alguem.
Tirei a tampa e o que vi não fez nenhum sentido. Milhares de expressões diferentes, desenhadas em pequenas e ovais folhas de papel. Triste, feliz, cansado, bravo,.. Não entendi. Eram minhas expressões? Emoções? E por que estavam em uma caixa?
O que aconteceu depois foi uma tragédia. O berro de uma grande senhora me assustou e em um pulo de medo, a caixa caiu das minhas mãos e todas aquelas emoções voaram e se espalharam pelo chão.
- O que você está fazendo aí parada? Está dormindo em pé? Vamos! Tem que abrir todas as janela até as sete horas do novo dia! Esqueceu de sua tarefa, mocinha? - E lá foi ela me puxando pelo braço com força e eu juro que por um momento, olhando para aquelas pequenas carinhas caídas, tive a impressão de ter visto suas expressões mudarem.
- Mas a senhora deve estar enganada, é a minha primeira vez aqui!
- O que? Está me chamando de louca? - disse ela
- Não, não foi isso que eu quis dizer. Apenas que...
- Tome! Pegue esse molho de chaves e comece seu trabalho! Não quero ouvir mais um piu!
Peguei de sua mão todas aquelas chaves e comecei subindo a primeira escada. Fui para a segunda, terceira, quarta,... Quando estava na décima quarta janela, o sino tocou. Eu não estava nem perto da metade de abrir todas.
A cidade parou lá embaixo. Todos ficaram em silêncio. Todos me olhavam como se eu fosse uma criminosa.
- Peguem ela! - gritou a enorme senhora.
De repente vi todas aquelas pessoas se moverem em direção a minha escada. Eu estava muito no alto e não conseguia ver nenhuma outra saída que não fosse a janela. Subi no parapeito e sem ver meu próximo destino, me joguei.

E assim fui caindo até abrir os olhos e perceber que tudo era apenas mais um sonho.