Voyage en Arménie

Assisti e recomendo muito!
ARMÊNIA (2007) - Um filme de Robert Guédiguian


por Luiz Carlos Merten - O Estadao de S.Paulo - dez/2007
Guédiguian - o sobrenome não nega. Robert Guédiguian, autor de filmes como A Cidade Está Tranqüila e Os Últimos Dias de Mitterrand, é um cineasta francês de origem armênia. Mas ele não era particularmente ligado em sua ascendência. Sabia que a força do povo armênio, após a diáspora, estava na sua cultura e até se divertia, ao participar de debates ao redor do mundo - Guédiguian sempre perguntava se havia armênios na sala. Nunca houve, no Brasil, na França, em qualquer país onde ele fosse (ou estivesse), uma platéia que não atendesse ao seu chamado. Sempre se levantavam mãos, em qualquer lugar. Em 2000, veio da Armênia o convite para que Guédiguian fosse mostrar seus filmes na terra de seus ancestrais. Ele foi - e a viagem o marcou tanto que ele voltou, repetidas vezes. 
No original, chama-se Voyage en Arménie, Viagem na (ou à) Armênia. Com roteiro de sua atriz-fetiche, Ariane Ascaride, e dele, Guédiguian fez este filme sobre uma filha que parte em busca do pai. Ela é médica, o velho está morrendo e, como um último esforço, parte sozinho em busca de suas raízes. Ela o segue, a princípio relutante. O filme trata de família, de raízes. Trata de sentimentos e de morte. ''''Havia feito um filme que foi muito importante para mim. Os Últimos Dias de Mitterrand, com Michel Bouquet, sobre a fase final do presidente francês, trata desse homem poderoso que se prepara emocionalmente para morrer. Depois de filmar o grande homem, voltei aos meus personagens populares, figuras mais comuns. Mas a relação é a mesma - um homem busca suas raízes, preparando-se para a morte.''''
Robert Guédiguian agradece à sua atriz - ''''Ariane inspirou-se em sua vida, na relação que tinha com o pai. A personagem do filme é ela, apesar da profissão diferente. O pai é o dela, mas eu também me projeto neste pai, quando ele diz que resiste ao internacionalismo. Poderia citar Jean Jaurès (NR - homem político e pensador francês) - a resistência ao internacionalismo afirma nossa identidade no mundo global.'''' É como se Guédiguian estivesse citando o velho Leon Tolstoi, que dizia que o artista, falando sobre sua aldeia, conseguia falar para todo o mundo. Ele reage a uma crítica que você encontra na internet, se for pesquisar sobre a Armênia - alguns internautas reclamam da facilidade com que a personagem de Ariane aprende a falar em armênio ou então do fato de que seu pai, voltando à terra da qual estivera ausente durante décadas, seja tão facilmente reconhecido e assimilado. ''''Essa é uma típica crítica que os armênios da diáspora podem fazer, mas não os armênios que permaneceram na terra. Eu próprio era reconhecido na rua e sempre alguém vinha estabelecer laços de família. Na Armênia, essas coisas permanecem muito fortes. Não me pergunte como, mas eles sabem, lá longe, tudo o que está ocorrendo com os armênios da diáspora, espalhados pelo mundo.''''
Nos últimos anos, o massacre dos armênios pelos turcos e a diáspora têm inspirado autores importantes. O canadense Atom Egoyan fez Ararat e os irmãos italianos Paolo e Vittorio Taviani dirigiram A Casa das Cotovias, que foi, como o filme de Guédiguian, exibido na Mostra de Cinema de São Paulo. A que se deve esse interesse pelo assunto? ''''A identidade armênia é uma coisa muito forte. Foi por meio dela que os armênios conseguiram resistir, sobreviver e reconstruir-se como nação. Vou confessar uma coisa - nunca havia pensado em fazer um filme sobre isso. Foram os próprios armênios que me cobraram. Armênia terminou sendo uma obra de encomenda. E o povo armênio, que me encomendou esse filme, ficou muito satisfeito com ele.''''
Autor de filmes sociais e políticos, Guédiguian talvez surpreenda ao dizer que se interessa muito pelo cinema que dialoga com o grande público. Homem-Aranha, Superman, tudo ele vê (e acompanha). ''''Independentemente de minha orientação política, sou um espectador como os outros. E, como diretor, me interessa acompanhar o desenvolvimento da técnica.'''' Sua afinidade é com Ken Loach, mas ele também fala com carinho de Nanni Moretti, com quem conviveu no recente Festival de Turim. Ambos são diretores engajados. Ken Loach, velho esquerdista, é aquilo que a crítica de direita chama de ''''dinossauro'''', por sua intransigência em continuar falando de assuntos incômodos ou em criticar os aspectos mais controversos da globalização. ''''A direita tenta fazer crer que é moderna e a esquerda está superada, mas isso não corresponde à verdade. É incrível, mas, apesar das mudanças da últimas décadas, continuamos falando em termos de esquerda e direita. É falso pensar que tudo isso está superado.''''
Para Guédiguian, é importante dialogar com o público - ''''Não faria sentido fazer um filme político para atingir 50 mil espectadores, que, muito provavelmente, já fazem parte do público conscientizado. Ken Loach fez quase um milhão de espectadores (na França) com Ventos da Liberdade, seu maior sucesso de público. E ele não precisou fazer nenhuma concessão para tocar o coração das platéias.'''' A propósito de Armênia, Guédiguian comenta que o filme é crítico desse mundo que focaliza. ''''Está tudo na tela - o lado positivo como o negativo. De certa maneira, é um filme excessivo, ou exaustivo, mas o público armênio gostou de se ver, com todas as suas contradições. É como eu sempre digo - a verdade, por mais dolorosa que seja, é necessária. É algo bom de dizer, ou pelo qual lutar.''''
Armênia está estreando nos cinemas brasileiros e Guédiguian já tem novo filme pronto. Ele acaba de fazer Lady Jane, de novo com Ariane Ascaride. É um filme de gênero - um noir com tudo a que esse tipo de filme tem direito, incluindo crimes, perseguições. O cenário - Marselha, naturalmente, onde Guédiguian ambientou todos, ou quase todos, os seus filmes (com a possível exceção de Mitterrand). Marselha fornece a paisagem de Marius et Jeannette, A Cidade Está Tranqüila, Marie-Joe et Ses Deux Amours. Por que essa atração pelo Midi (o Sul da França)? ''''Porque é, ao mesmo tempo, solar e sombrio. O submundo de Marselha, cidade portuária, faz parte do imaginário dos espectadores. Há muita diversidade, étnica como cultural e social. É uma cidade muito rica para se trabalhar. Moro em Paris, mas, como fonte de inspiração, Marselha é insubstituível, para mim.''''